domingo, 30 de junho de 2013

Abre Alas, a hora e a arte de Marcelo D2

 Foi no ano de 2004 que Chico Buarque levantou uma questão que está sendo discutida até hoje, o fim da canção como nós a conhecemos, o esgotamento de sua forma. Uma nova vertente que poderia selar essa afirmação seria o rap. O compositor carioca estava atento ao movimento paulista, fortemente representado pelo grupo Racionais Mc's. Enquanto isso no Rio de Janeiro, o ex vocalista do grupo Planet Hemp, estava também apresentando seu trabalho solo no mesmo gênero em questão, seu nome, Marcelo Maldonado Gomes Peixoto, o Marcelo D2.
Tanto o rap paulista, como o carioca, carregam em sua temática, a forte questão social vivida pelas baixas classes, subúrbios e favelas brasileiras, seu cotidiano e conflitos, procurando retratar em forma de poesia ritmada a dura realidade do cidadão brasileiro ignorado pela classe média e alta burguesia brasileira. 
Não é de hoje que a canção popular brasileira é acompanhada e diretamente influenciada por questões políticas e sociais, o descontentamento com o sistema sempre foi explorado nas letras da música popular, principalmente em todo período da ditadura. No período dos grandes festivais da TV Record, por exemplo, consolidaram-se grande parte dos compositores mais significativos da nossa história da música, explorando essa temática, muitas vezes camuflada pela poesia, a fim de escapar dos atentos olhos e ouvidos da censura.
Passada a ditadura militar, e estabelecida a liberdade de expressão, a música, na atualidade, aparentemente não sofre as amarras da censura, e o rap se beneficia desta "liberdade".
Desprovido de elementos musicais complexos, o rap baseia-se numa estrutura rítmica valorizada pela palavra, suas rimas e próprias entonações, sem acompanhamentos harmônicos relevantes. Sempre discutindo temas da realidade de uma periferia, ele é cantado em tom bastante agressivo na maioria das vezes.
O rap de Marcelo D2, por sua vez, apresenta um adicional musical que podemos considerar bastante relevante desde o ponto de vista estético como semântico. Sempre dialogando com a música popular brasileira o trabalho do rapper vez em outra traz citações de músicas que já fizeram história, tanto política como musical. Uma das mais famosas foi “Desabafo”, que começa com a gravação da cantora Claudia de “Deixa eu dizer”, música de Ivan Lins e letra de Ronaldo Monteiro de Souza. “Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar...” , embalado por este refrão, D2 discorre seu desabafo em forma de versos. Com um toque a mais de leveza em sua mensagem, comparado a outros rappers, Marcelo D2 dirige sua crítica as situações cotidianas, visitando outros assuntos como família, fé e música. Sempre se refere ao rap como “sua arte” e sua busca pela batida perfeita. Essa talvez seja a razão de notar-se a forte influência da música brasileira em seu trabalho, introduzir ritmos brasileiros à batida tradicional do rap, definitivamente é um diferencial em sua música, diferencial que levou D2 a participar do disco de João Donato “Managarroba”, a faixa “Balança”.
Depois do sucesso de Desabafo, mais uma vez, o rapper apresenta um novo trabalho, Nada pode me parar, e nele a faixa Está chegando a hora. Mais uma vez, o discurso do rap é desenvolvido em cima de uma música de Ivan Lins parceria com Vitor Martins, Abre Alas, cujo refrão deu origem ao nome da música. “Abre Alas pra minha folia, já está chegando a hora...”.
O rap Está chegando a hora, começa dialogando com os primórdios da cultura musical brasileira, especialmente a carioca, citando o malandro, o samba e os bambas, personagens características do samba carioca, “Eu faço rap no Rio cumpadi, tu tem coragem, Terra de samba, de bambas no meio da malandragem..”, a primeira estrofe é uma introdução ao tema, onde Marcelo diz, de onde vem, o que faz, o que acredita e quais são suas raízes, sempre colocando o rap como um meio de comunicação e protesto, em forma de arte, arte essa  que exigiu seu sangue e suor, provavelmente um discurso de um rapper amadurecido e convicto de seu trabalho.
É interessante ressaltar a pontualidade deste fonograma no que diz respeito à situação atual do país. Neste ano de 2013, o Brasil passa por um momento onde a voz do povo luta em ser ouvida na conquista e estabelecimentos de seus direitos, por meio de protestos e manifestações coletivas. Marcelo aponta seu rap como aquele que está na voz do povo “o povo que é de verdade” e fala em alternativas, uma arte que fala de ódio e amor num mesmo verso, ideia que vai de encontro à intenção de manifestação pacífica porém  indignada que está nos ânimos da população brasileira, “Porque nunca fui padrão, eu trago a alternativa de sonho até real, de êxtase ou de dor, que dá pra falar de ódio, mas dá pra falar de amor..” e nesta mesma estrofe, encerra “bandeiras erguidas, mãos pro alto que a gente chegou”. Intencional ou não, este verso chega a ser a fotografia realidade atual brasileira. É neste ânimo que a estrofe do clássico de Ivan Lins é repetida duas vezes, Já está chegando a hora.
Marcelo segue discursando sobre a individualidade de escolha, importância da arte, e responsabilidade de cada um sobre suas escolhas e atos, elementos como família, fé, respeito estão presentes na segunda estrofe. A liberdade de expressão e escolha está no verso “tua mina ouve meu rap, mas cada um na sua, calça larga ou skinny jeans...”.
Assim como em toda a vertente do rap, o orgulho de pertencer a algum lugar, ou a algum povo, é marcante nas rimas deste fonograma, especialmente num momento em que o povo tupiniquim tem a presença tão forte na formação da história do país, é com este espírito que segue a segunda estrofe antes de retornar ao refrão de Abre Alas, “Já plantamos sementes, hoje colhemos conquistas (..) Minha luta, minha história, minha glória, meu povo (..) Abre alas que eu quero passar...”.

É pedindo licença sem perder a atitude característica, que de Desabafo a Está chegando a hora, que Marcelo D2 constrói sua arte de poesia ritmada com rigor, e sempre resgatando elementos da raiz da música brasileira, um diferencial significativo em todo o seu trabalho.

Está chegando a hora
Pra quem trabalha desde os 13, nunca recorreu ao 12
Dá valor ao que conquista, não vai querer viver de pose
Eu faço rap no rio, cumpadi, tu tem coragem
Terra de samba, de bambas, no meio da malandragem
É sem patrão, falsidade, pra viver de verdade
Dei meu sangue por isso. queira ou não, fiz minha parte
Foda-se o seu blog, meu nome tá na cidade
Minha rima na voz do povo, do povo que é de verdade
Que sabe que faço resistência a toda essa mentira
Porque nunca fui padrão, eu trago a alternativa
De sonho até real, de extâse ou de dor
Que dá pra falar de ódio, mas dá pra falar de amor
O dom é a vida que dá e dá pode acreditar
Às vezes palavras tortas, às vezes laiá-laiá (há)
Eu tenho a alma de um lanceiro, que nunca se entregou
Bandeiras erguidas, mãos pro alto que a gente chegou
Abre alas pra minha folia
Já está chegando a hora
Abre alas pra minha bandeira
Já está chegando a hora
Um bom malandro sempre tem os amigos por sua volta
Família? toma conta que assim nunca toma volta
Então, cê pode pensar, se é que cê pensa na escolha
De ter uma arte na cabeça até o muro que tu escolta
Nem sempre foi assim, mas tu já viu minha arte na rua
Tua mina ouve meu rap mas cada um na sua
Calça larga ou skinny jeans, um boné e um tênis
Sem vergonha de ser do gueto, fechando as correntes
Já plantamos as sementes, hoje colhemos conquistas
Ouvir o som sair da rua pro rádio, pra pista
Tá mole, perdeu de vista, tamo forte no jogo
Minha luta, minha história, minha glória, meu povo
Não é replay, como manda o rei, de novo
Eu já falei que a minha família toca fogo (há)
Eu sou do Andara e não posso negar
E nem vou, oh, abre alas que eu quero passar (simbora)
Abre alas pra minha folia
Já está chegando a hora
Abre alas pra minha bandeira
Já está chegando a hora
Prestem atenção, prestem atenção, prestem atenção,prestem atenção atenção