quinta-feira, 30 de maio de 2013

Os Duos de Luciana Souza

Se existe uma distinção ou disjunção dos termos “música” e “canção”, Luciana Souza definitivamente é uma cantora que trata de reuni-los com maestria e rigor ao longo de todo seu trabalho, pois tanto na linguagem do jazz e do cool como na música puramente brasileira, passeando por diversos de seus ritmos, Luciana se utiliza da força da palavra e das sutilezas de notas improvisadas nas canções com tanta propriedade que melodia e texto se confundem dentro de tamanha homogeneidade.
É com essa soberania musical que a cantora celebra o fechamento de uma trilogia de sucesso com o álbum Duos III.
Os dois primeiros discos, Brazilian Duos e Duos II, no formato voz e violão trazem um repertório de grandes músicas do cancioneiro brasileiro interpretada por violonistas da mais alta estirpe musical. As parcerias permanentes com Romero Lubambo e Marco Pereira que estão presentes nos dois álbuns, e convidados Walter Santos (Brazilian Duos) e Swami Jr. (Duos II) deram corpo a este trabalho que visita alguns dos diversos ritmos tupiniquins e contempla nossos compositores na forma mais apreciada e tradicional da cultura popular, a música feita com violão e voz.
É com a sonoridade singular do mineiro Toninho Horta, que Luciana convida o ouvinte a apreciar o álbum, Tim Tim por Tim Tim, uma faixa curta de um minuto e meio, cuja leveza de interpretação, tanto das cordas de Toninho Horta quanto da voz de Luciana, aguça a vontade de descobrir o que está por vir, e é conversando com Romero Lubambo, usando a voz como instrumento na melodia dobrada com o violão, que logo depois se transforma em um diálogo de frases melódicas, que vem Doralice, de Antonio Almeida e Dorival Caymmi. Essa conversa entre voz e instrumento é uma característica bastante forte nos arranjos de Lubambo nos dois primeiros discos. Não poderia ser diferente neste último álbum, este diálogo causa sensação de que violonista e cantora se divertem na junção do baião de Gonzaga com o de Djavan, Lamento Sertanejo e Maçã do Rosto, um pot-pourri muito bem alinhado entre ritmo, letra e improviso. Ainda explorando a peculiaridade rítmica que Romero Lubambo traz as interpretações, Dindi é uma grata revisita ao maestro Jobim, fugindo dos padrões clichês da levada em bossa, já bastante explorada em
outras interpretações, com um leve toque da levada em blues, e desdobramento da melodia na voz, uma bonita versão deste clássico.
É com Marco Pereira que Luciana Souza deixa sua marca de instrumentista vocal na faixa Dona Lu, composição do próprio Marco Pereira. Ainda deixando sua bela condução harmônica das sete cordas, os bonitos registros de Chora Coração e Magoas de Caboclo, definitivamente exploram o tom melancólico do timbre marcante da cantora junto com o violão de Marco.
Se o disco se abriu com som único de Toninho Horta, nada mais apropriado do que finalizar da mesma forma. É com a belíssima melodia do Beijo Partido de Toninho Horta, que Luciana encerra o álbum e também a bem sucedida trilogia de Duos, deixando ao ouvinte a vontade de reviver a experiência desde o primeiro disco Brazilian Duos até Duos III, dos pés a cabeça.