quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Quando Filó Machado canta um samba...

           Quem anda pelas ruas da Vila Mariana, em São Paulo, não pode imaginar que ali por perto, com seu violão no aconchego do seu lar, encontra-se um dos grandes músicos deste país. Passando despercebido pela grande massa brasileira, Filó Machado tem o alicerce da sua carreira em todo território estrangeiro, deixando a marca da música do Brasil por onde quer que passe. Naturalmente que não se poderia desejar representante melhor pra música tupiniquim, uma vez que o trabalho de Filó é rico em ritmos, harmonias e improvisos, conversando fluentemente com diversos sons brasileiros e até mesmo com o jazz americano. Sua discografia é rica em sonoridades e um disco que chama bastante a atenção é Cantando um samba.
        Apesar do nome bem brasileiro, Cantando um samba foi gravado no Brasil, porém lançado lá fora. Uma produção que começou caseira, apenas como registro das composições de Filó, como ele mesmo costuma dizer, tomou proporção maior com a parceria da Malandro Records, e o suingue da voz e violão do cantor ficou gravado num disco de Brazilian Jazz, como está na capa produzida pela gravadora.
Com liberdade musical característica do jazz, representada por improvisos e a diversidade dos ritmos brasileiros, o disco começa com a faixa Água Viva, um baião composto por ele, onde a única letra cantada é o refrão “Ê água viva...” e todo o tema se desenvolve por vocalizes abertos em diferentes vozes, gravadas pelo próprio Filó, seguidos por improvisos vocais e instrumentais.
        O apelo vocal-instrumental (música cantada sem letra) é presente em praticamente todo o disco. Um exemplo bem forte é a regravação de Take Five, de Paul Desmond, imortalizada por Dave Brubeck. Nesta faixa Filó usa e abusa dos improvisos vocais rítmicos, fazendo da sua voz uma verdadeira percussão acompanhada do violão, se apropriando de forma segura de um tema já tão bem conceituado.
        A faixa Boca de leão, parceria de Filó com Judith de Souza, é provavelmente a mais tocada não só do disco, como das performances ao vivo do cantor. Acompanhado apenas por seu próprio violão, ele a inicia com suas improvisações antes de entrar no tema com a letra de Judith. “Mastigo a vida, pimenta ardida, fogo na venta boca de leão...” o tom forte e agressivo da letra na parte A é enfatizado pela harmonia suspensa que causa certa tensão no ouvinte, movimentado num groove único de Filó Machado, “No meio dessa intriga, a vida me mastiga...” o refrão se abre num samba, e a sensação de tensão transforma-se numa sensação de entrega e se encerra “Eu não sou de briga, sou de opinião.”.

Multi instrumentista que é, neste disco, Filó canta, toca violão, teclado, percussão, faz arranjos e compõe. Apropriado de todos os rítmicos, desenvolveu uma maneira muito pessoal de tocar e cantar, que é referencia para muitos músicos e ouvintes de diferentes gerações. Cantando um samba, deveria ser o “disco de cabeceira” pra todo aquele que deseja conhecer uma sonoridade universal. Cantando um samba, um jazz ou um baião, Filó Machado simplesmente faz música.

domingo, 30 de junho de 2013

Abre Alas, a hora e a arte de Marcelo D2

 Foi no ano de 2004 que Chico Buarque levantou uma questão que está sendo discutida até hoje, o fim da canção como nós a conhecemos, o esgotamento de sua forma. Uma nova vertente que poderia selar essa afirmação seria o rap. O compositor carioca estava atento ao movimento paulista, fortemente representado pelo grupo Racionais Mc's. Enquanto isso no Rio de Janeiro, o ex vocalista do grupo Planet Hemp, estava também apresentando seu trabalho solo no mesmo gênero em questão, seu nome, Marcelo Maldonado Gomes Peixoto, o Marcelo D2.
Tanto o rap paulista, como o carioca, carregam em sua temática, a forte questão social vivida pelas baixas classes, subúrbios e favelas brasileiras, seu cotidiano e conflitos, procurando retratar em forma de poesia ritmada a dura realidade do cidadão brasileiro ignorado pela classe média e alta burguesia brasileira. 
Não é de hoje que a canção popular brasileira é acompanhada e diretamente influenciada por questões políticas e sociais, o descontentamento com o sistema sempre foi explorado nas letras da música popular, principalmente em todo período da ditadura. No período dos grandes festivais da TV Record, por exemplo, consolidaram-se grande parte dos compositores mais significativos da nossa história da música, explorando essa temática, muitas vezes camuflada pela poesia, a fim de escapar dos atentos olhos e ouvidos da censura.
Passada a ditadura militar, e estabelecida a liberdade de expressão, a música, na atualidade, aparentemente não sofre as amarras da censura, e o rap se beneficia desta "liberdade".
Desprovido de elementos musicais complexos, o rap baseia-se numa estrutura rítmica valorizada pela palavra, suas rimas e próprias entonações, sem acompanhamentos harmônicos relevantes. Sempre discutindo temas da realidade de uma periferia, ele é cantado em tom bastante agressivo na maioria das vezes.
O rap de Marcelo D2, por sua vez, apresenta um adicional musical que podemos considerar bastante relevante desde o ponto de vista estético como semântico. Sempre dialogando com a música popular brasileira o trabalho do rapper vez em outra traz citações de músicas que já fizeram história, tanto política como musical. Uma das mais famosas foi “Desabafo”, que começa com a gravação da cantora Claudia de “Deixa eu dizer”, música de Ivan Lins e letra de Ronaldo Monteiro de Souza. “Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar...” , embalado por este refrão, D2 discorre seu desabafo em forma de versos. Com um toque a mais de leveza em sua mensagem, comparado a outros rappers, Marcelo D2 dirige sua crítica as situações cotidianas, visitando outros assuntos como família, fé e música. Sempre se refere ao rap como “sua arte” e sua busca pela batida perfeita. Essa talvez seja a razão de notar-se a forte influência da música brasileira em seu trabalho, introduzir ritmos brasileiros à batida tradicional do rap, definitivamente é um diferencial em sua música, diferencial que levou D2 a participar do disco de João Donato “Managarroba”, a faixa “Balança”.
Depois do sucesso de Desabafo, mais uma vez, o rapper apresenta um novo trabalho, Nada pode me parar, e nele a faixa Está chegando a hora. Mais uma vez, o discurso do rap é desenvolvido em cima de uma música de Ivan Lins parceria com Vitor Martins, Abre Alas, cujo refrão deu origem ao nome da música. “Abre Alas pra minha folia, já está chegando a hora...”.
O rap Está chegando a hora, começa dialogando com os primórdios da cultura musical brasileira, especialmente a carioca, citando o malandro, o samba e os bambas, personagens características do samba carioca, “Eu faço rap no Rio cumpadi, tu tem coragem, Terra de samba, de bambas no meio da malandragem..”, a primeira estrofe é uma introdução ao tema, onde Marcelo diz, de onde vem, o que faz, o que acredita e quais são suas raízes, sempre colocando o rap como um meio de comunicação e protesto, em forma de arte, arte essa  que exigiu seu sangue e suor, provavelmente um discurso de um rapper amadurecido e convicto de seu trabalho.
É interessante ressaltar a pontualidade deste fonograma no que diz respeito à situação atual do país. Neste ano de 2013, o Brasil passa por um momento onde a voz do povo luta em ser ouvida na conquista e estabelecimentos de seus direitos, por meio de protestos e manifestações coletivas. Marcelo aponta seu rap como aquele que está na voz do povo “o povo que é de verdade” e fala em alternativas, uma arte que fala de ódio e amor num mesmo verso, ideia que vai de encontro à intenção de manifestação pacífica porém  indignada que está nos ânimos da população brasileira, “Porque nunca fui padrão, eu trago a alternativa de sonho até real, de êxtase ou de dor, que dá pra falar de ódio, mas dá pra falar de amor..” e nesta mesma estrofe, encerra “bandeiras erguidas, mãos pro alto que a gente chegou”. Intencional ou não, este verso chega a ser a fotografia realidade atual brasileira. É neste ânimo que a estrofe do clássico de Ivan Lins é repetida duas vezes, Já está chegando a hora.
Marcelo segue discursando sobre a individualidade de escolha, importância da arte, e responsabilidade de cada um sobre suas escolhas e atos, elementos como família, fé, respeito estão presentes na segunda estrofe. A liberdade de expressão e escolha está no verso “tua mina ouve meu rap, mas cada um na sua, calça larga ou skinny jeans...”.
Assim como em toda a vertente do rap, o orgulho de pertencer a algum lugar, ou a algum povo, é marcante nas rimas deste fonograma, especialmente num momento em que o povo tupiniquim tem a presença tão forte na formação da história do país, é com este espírito que segue a segunda estrofe antes de retornar ao refrão de Abre Alas, “Já plantamos sementes, hoje colhemos conquistas (..) Minha luta, minha história, minha glória, meu povo (..) Abre alas que eu quero passar...”.

É pedindo licença sem perder a atitude característica, que de Desabafo a Está chegando a hora, que Marcelo D2 constrói sua arte de poesia ritmada com rigor, e sempre resgatando elementos da raiz da música brasileira, um diferencial significativo em todo o seu trabalho.

Está chegando a hora
Pra quem trabalha desde os 13, nunca recorreu ao 12
Dá valor ao que conquista, não vai querer viver de pose
Eu faço rap no rio, cumpadi, tu tem coragem
Terra de samba, de bambas, no meio da malandragem
É sem patrão, falsidade, pra viver de verdade
Dei meu sangue por isso. queira ou não, fiz minha parte
Foda-se o seu blog, meu nome tá na cidade
Minha rima na voz do povo, do povo que é de verdade
Que sabe que faço resistência a toda essa mentira
Porque nunca fui padrão, eu trago a alternativa
De sonho até real, de extâse ou de dor
Que dá pra falar de ódio, mas dá pra falar de amor
O dom é a vida que dá e dá pode acreditar
Às vezes palavras tortas, às vezes laiá-laiá (há)
Eu tenho a alma de um lanceiro, que nunca se entregou
Bandeiras erguidas, mãos pro alto que a gente chegou
Abre alas pra minha folia
Já está chegando a hora
Abre alas pra minha bandeira
Já está chegando a hora
Um bom malandro sempre tem os amigos por sua volta
Família? toma conta que assim nunca toma volta
Então, cê pode pensar, se é que cê pensa na escolha
De ter uma arte na cabeça até o muro que tu escolta
Nem sempre foi assim, mas tu já viu minha arte na rua
Tua mina ouve meu rap mas cada um na sua
Calça larga ou skinny jeans, um boné e um tênis
Sem vergonha de ser do gueto, fechando as correntes
Já plantamos as sementes, hoje colhemos conquistas
Ouvir o som sair da rua pro rádio, pra pista
Tá mole, perdeu de vista, tamo forte no jogo
Minha luta, minha história, minha glória, meu povo
Não é replay, como manda o rei, de novo
Eu já falei que a minha família toca fogo (há)
Eu sou do Andara e não posso negar
E nem vou, oh, abre alas que eu quero passar (simbora)
Abre alas pra minha folia
Já está chegando a hora
Abre alas pra minha bandeira
Já está chegando a hora
Prestem atenção, prestem atenção, prestem atenção,prestem atenção atenção

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Os Duos de Luciana Souza

Se existe uma distinção ou disjunção dos termos “música” e “canção”, Luciana Souza definitivamente é uma cantora que trata de reuni-los com maestria e rigor ao longo de todo seu trabalho, pois tanto na linguagem do jazz e do cool como na música puramente brasileira, passeando por diversos de seus ritmos, Luciana se utiliza da força da palavra e das sutilezas de notas improvisadas nas canções com tanta propriedade que melodia e texto se confundem dentro de tamanha homogeneidade.
É com essa soberania musical que a cantora celebra o fechamento de uma trilogia de sucesso com o álbum Duos III.
Os dois primeiros discos, Brazilian Duos e Duos II, no formato voz e violão trazem um repertório de grandes músicas do cancioneiro brasileiro interpretada por violonistas da mais alta estirpe musical. As parcerias permanentes com Romero Lubambo e Marco Pereira que estão presentes nos dois álbuns, e convidados Walter Santos (Brazilian Duos) e Swami Jr. (Duos II) deram corpo a este trabalho que visita alguns dos diversos ritmos tupiniquins e contempla nossos compositores na forma mais apreciada e tradicional da cultura popular, a música feita com violão e voz.
É com a sonoridade singular do mineiro Toninho Horta, que Luciana convida o ouvinte a apreciar o álbum, Tim Tim por Tim Tim, uma faixa curta de um minuto e meio, cuja leveza de interpretação, tanto das cordas de Toninho Horta quanto da voz de Luciana, aguça a vontade de descobrir o que está por vir, e é conversando com Romero Lubambo, usando a voz como instrumento na melodia dobrada com o violão, que logo depois se transforma em um diálogo de frases melódicas, que vem Doralice, de Antonio Almeida e Dorival Caymmi. Essa conversa entre voz e instrumento é uma característica bastante forte nos arranjos de Lubambo nos dois primeiros discos. Não poderia ser diferente neste último álbum, este diálogo causa sensação de que violonista e cantora se divertem na junção do baião de Gonzaga com o de Djavan, Lamento Sertanejo e Maçã do Rosto, um pot-pourri muito bem alinhado entre ritmo, letra e improviso. Ainda explorando a peculiaridade rítmica que Romero Lubambo traz as interpretações, Dindi é uma grata revisita ao maestro Jobim, fugindo dos padrões clichês da levada em bossa, já bastante explorada em
outras interpretações, com um leve toque da levada em blues, e desdobramento da melodia na voz, uma bonita versão deste clássico.
É com Marco Pereira que Luciana Souza deixa sua marca de instrumentista vocal na faixa Dona Lu, composição do próprio Marco Pereira. Ainda deixando sua bela condução harmônica das sete cordas, os bonitos registros de Chora Coração e Magoas de Caboclo, definitivamente exploram o tom melancólico do timbre marcante da cantora junto com o violão de Marco.
Se o disco se abriu com som único de Toninho Horta, nada mais apropriado do que finalizar da mesma forma. É com a belíssima melodia do Beijo Partido de Toninho Horta, que Luciana encerra o álbum e também a bem sucedida trilogia de Duos, deixando ao ouvinte a vontade de reviver a experiência desde o primeiro disco Brazilian Duos até Duos III, dos pés a cabeça.